Hoje não queria por o casaco.
Depois não queria por o gorro.
E gritava. E tirava os braços das mangas com uma destreza maior que a minha, que já tinha uma mala e uma mochila a tiracolo para sairmos.
Falei, falei, falei e ralhei porque queria sair de casa e estávamos nisto há quase 20 minutos… a paciência a fugir mais rápido do que eu conseguia controlar, confesso...
Atirou o comboio ao chão. Pedi que apanhasse o comboio se o queria levar consigo porque íamos sair. Não apanhou e saímos. E chorou e voltei a abrir a porta e pedi que fosse buscar. E não foi e voltamos a sair. E voltou a chorar. E fiz isto mais uma vez. E em pé, com o comboio aos pés, de cabeça baixa sem olhar para mim, não o apanhou. Apanhei eu, passei-lho para as mãos e saímos.
Não sei se é de ter dois anos e tal, se é de ser gémeos ou se é feitio… para mim esta cena foi uma repetição de uma que vi há mais de trinta anos entre o meu irmão e o meu pai. Havia algo atirado ao chão e ele não apanhava. O meu pai ralhou e bateu-lhe, por um tempo que a mim me pareceu infinito e ele não apanhou. Não sei se o meu irmão e o meu pai aprenderam alguma lição naquele dia mas eu aprendi...